Você conhece a Associação de Crocheteiras Mundo Jeri?
- tartarugasdejeri

- 21 de jun. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de ago. de 2023

Antes da criação da associação, as mulheres crocheteiras nativas do Córrego do Urubu, de Jijoca e da Chapadinha iam até Jeri (na época chamada de Serrote) trocar por peixe os alimentos que cultivavam em seus quintais - cebola, pimentão… Outro modo de subsistência que essas mulheres encontravam era, na época do caju, colher as castanhas que encontravam pelos caminhos, nos arredores da vila, pra depois vender.
No começo, na década de 90, quando apareciam os primeiros turistas de Jeri mas ainda não haviam pousadas, o crochê era vendido por preços inacreditavelmente baixos, e o trabalho dessas mulheres - um trabalho ao mesmo tempo braçal e criativo - era extremamente desvalorizado, e assim permaneceu por um tempo; com a criação da Mundo Jeri, em 2008, a partir da iniciativa do SEBRAE de incentivar a união das artistas do crochê, iniciou-se um processo de fortalecimento e valorização do trabalho dessas artesãs, que progressivamente foram passando a conseguir vender as peças por preços mais justos.
46 mulheres formavam a associação no início, e sua primeira coleção foi lançada em 2009, em um desfile no Clube dos Ventos. O movimento que gerou a criação da associação e da coleção foi reconhecido nacionalmente. Infelizmente, na instabilidade de um início incerto, quando o crochê não tinha alcançado a notoriedade que merece e as crocheteiras atravessavam perrengues na baixa temporada, muitas mulheres abandonaram o sonho da associação, e apenas 8 permaneceram.
A primeira sede da Mundo Jeri era no antigo Centro de Artesanato, na Rua das Dunas, um espaço cedido na época pela prefeitura. Depois, as mulheres demandaram do poder público um espaço mais visível, mais central, e conseguiram, em 2011, a antiga sede da telemar, na Rua Principal, onde até hoje permanecem. A casinha estava abandonada e elas fizeram uma reforma por conta própria. Só em 2019 elas conseguiram a garantia de posse do imóvel que ocupam há tantos anos.
Em 2011, alguns meses após a chegada das 8 mulheres na nova sede, conflitos internos aconteceram e elas fecharam o lugar por 1 ano. Durante esse período de crise, Evilsa da Silva, uma das mulheres mais importantes dessa história toda, foi na casa de cada uma das 46 mulheres presentes no início da associação para convidá-las a voltar. Assim, 18 mulheres retornaram. São as mesmas 18 que até hoje permanecem.
Elas já trabalharam com marcas como a John John, fazendo os crochês que vestem alguns cajueiros da vila, e a Benegrip, produzindo os bonequinhos “vírus do bem”. Além disso, representam o artesanato de Jeri no Sesc Povos do Mar, evento anual que acontece em Iparana com artesãos do Brasil todo. Lá, dão palestras sobre suas experiências de luta e suas conquistas coletivas.
Durante a pandemia, como muita gente, elas precisaram buscar formas de se reinventar pra sobreviver. Assim, começaram a produzir roupas pra várias marcas do país. Através do instagram @mundojeri_crochet é possível ver parte de seu catálogo e comprar sua arte.
A história do percurso dessas mulheres pode nos ensinar muito sobre o poder transformador da união entre as pessoas. A partir da união, essas mulheres conseguiram gerar um movimento que, por sua visibilidade, mudou a visão de muita gente sobre o crochê. A partir da união, elas encontraram uma forma de fazer sobreviver a tradição ancestral do crochê e encontraram também uma fonte de renda digna.
Desejamos pra essa arte, feita com mãos coletivas e guerreiras, que os horizontes sejam nada menos que o mundo inteiro.
texto de autoria de Renata Cidrack.

Renata é arquiteta e urbanista, fotógrafa, designer, tradutora e pesquisadora, um ser apaixonado pela natureza e pela cultura e conectado pelo coração à vila de Jericoacoara. Trabalha realizando pesquisas, fazendo entrevistas e produzindo conteúdo para a Baía das Tartarugas.





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