Documentário Vila Kalango: Memórias de Jericoacoara.
- tartarugasdejeri

- 14 de dez. de 2023
- 3 min de leitura
O documentário foi produzido em 2016 e entrevista diversas pessoas, nativas e estrangeiras, que têm uma relação profunda com a vila. Fala-se sobre a cultura antes da chegada do turismo, por exemplo, os costumes nativos de ver o pôr do sol na duna, jogar futebol e dançar forró. A riqueza dos repentistas e violeiros, que criavam canções improvisadas com muita sabedoria e criatividade. Os saberes das respeitadas rezadeiras e parteiras, como dona Baica, que já realizou centenas de partos sem nunca um ter dado errado. Fala-se também da dificuldade que era o isolamento nessa época. Fala-se dos mutirões para a construção da Igreja. Fala-se do acolhimento dos primeiros turistas, nas casas dos nativos, e a empolgação que existia nessas trocas com os estrangeiros.
O ponto alto do documentário são as lembranças sobre como era a pesca antes do turismo, e a análise dos fatores que levaram praticamente ao fim da pesca. Existia uma ciência complexa que era dominada pelo mestre do barco, o pescador que sabia a hora de ir pro mar, se o vento estava bom, quem deveria ir no barco, onde ir buscar o peixe. Os pescadores chegavam a passar 6 dias emendados em alto mar, e voltavam com verdadeiras montanhas de peixes, que eram rapidamente tratados pelas mulheres da comunidade; elas faziam o processo de limpeza dos peixes em uma rapidez quase industrial. Aconteciam, sim, mortes no mar, mas não eram frequentes.
A grande questão do ‘início do fim’ da cultura do pescador, a partir da década de 1980, esteve associada à morte de Olavo Marques, que era um coronelista que detinha da maioria das terras e dos barcos de Jericoacoara. Os pescadores utilizavam os barcos de Olavo para pescar, no esquema de pagar ¼ de seus rendimentos a ele. Com a sua morte, os pescadores se viram desarticulados, sem barcos e sem uma rede de conexões para vender seus peixes. Assim, muitos migraram para outras praias onde pudessem pescar.
Com a criação da APA e a chegada do turismo, os nativos foram vendendo suas terras. Ganhavam dinheiro, mas ficavam sem terra. Outros, criaram suas pousadas. Mas com a chegada de grandes e luxuosas pousadas, as hospedagens nativas foram perdendo seu espaço. Grileiros foram cercando lotes e mais lotes, mesmo com a comunidade unida contra isso. A comunidade se reuniu, derrubou cercas e queimou-as. A comunidade, aliás, sempre foi unida, e construiu muitas coisas através dessa união. Enfim, o dinheiro passou a circular na vila, mas os nativos permaneceram sem acesso à educação, o analfabetismo permaneceu em alta, e as drogas e a prostituição adoeceram o tecido social.
O conselho comunitário foi criado em 1984, e conseguiu diversos avanços importantes para a vila. Sistema subterrâneo de energia elétrica, sistema de água, posto de saúde, coleta seletiva do lixo, tudo isso foi conquista do conselho nessa época. Com a desarticulação do conselho ao longo dos anos, muito foi perdido.
O documentário faz uma bela leitura dos processos históricos que aconteceram na vila, sem romantismos, com narradores de diversos contextos que vão tecendo uma história concisa dos complexos processos pelos quais Jeri passou e ainda passa; a mensagem que encerra o filme é de otimismo: deve haver turismo, sim, mas um turismo com mais responsabilidade social é possível e necessário.

texto de autoria de Renata Cidrack.

Renata é arquiteta e urbanista, fotógrafa, designer, tradutora e pesquisadora, um ser apaixonado pela natureza e pela cultura e conectado pelo coração à vila de Jericoacoara. Trabalha realizando pesquisas, fazendo entrevistas e produzindo conteúdo para a Baía das Tartarugas.





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