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Os primeiros habitantes de Jeri

  • Foto do escritor: tartarugasdejeri
    tartarugasdejeri
  • 19 de ago. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 7 de ago. de 2023


Jeri tem seus primeiros registros de ocupação datados do século XVII, quando aqui habitavam índios Tremembés. Esses povos trabalhavam principalmente como pescadores e agricultores, e conseguiram guardar um pouco da sua cultura ao longo dos séculos de catequização e luta pela terra. Hoje, eles ainda dançam o torém (uma dança ritual) e ainda produzem o mocororó (vinho de caju azedo fermentado). Eles costumam pintar as paredes das suas habitações e cerâmicas com motivos simbólicos do seu habitat, como o caju, a rolinha, os peixes e os caranguejos. As mulheres Tremembé confeccionam biojoias, como colares e pulseiras com conchas, búzios e sementes, e também praticam a tecelagem.


Os Tremembés foram pioneiros no Ceará na criação de uma educação indígena diferenciada - tanto a nível escolar quanto na universidade. A primeira escola Tremembé se chamava Alegria do Mar e foi criada em 1991, por Raimunda Marques do Nascimento, filha de um pescador que viria a se tornar o cacique João Venâncio. Aos 18 anos, vinda de Fortaleza - onde trabalhava como doméstica -, ela agiu por conta própria ao juntar pessoas de 1,5 a 18 anos na comunidade da Praia, debaixo de uma velha pesqueira de palha, para ensiná-los a ler, escrever, contar, cantar e dançar as tradições do Torém Tremembé. Raimunda encantou-se, mas depois de sua morte recebeu da UFC a Medalha do Mérito Cultural em reconhecimento à sua importância como guardiã e propagadora da cultura de seu povo. A pequena revolução implementada por Raimunda inspirou a criação de várias outras escolas indígenas no Ceará e, em 2006, do Magistério Indígena Tremembé Superior (MITS), um curso de graduação, nascido da parceria entre os Tremembés e a UFC, que forma professores capacitados a ensinar sobre a cultura e as tradições tremembés. O MITS é o primeiro curso de formação de professores indígenas em nível superior da história do Nordeste, e inclusive algumas de suas disciplinas são ministradas por pessoas notórias da comunidade Tremembé, como o cacique e o pajé. A criação do MITS também serviu de modelo e impulsionou a criação do Magistério Indígena Superior Intercultural dos Povos Pitaguary, Tapeba, Kanindé, Jenipapo-Kanindé e Anacé, em 2009.


Os Tremembé foram citados em documentação histórica e em diversas obras do período colonial, tendo sido aldeados em certas missões da igreja, tanto no Maranhão como no Ceará, muitas vezes convivendo e fundindo-se a outras etnias também aldeadas pelos religiosos. Almofala foi uma das primeiras ocupações do litoral cearense, a partir do século XIII, tendo sido o local do mais conhecido aldeamento dos Tremembé, que foi fechado na segunda metade do século XIX, durando mais de 100 anos. Almofala é onde fica a chamada “Terra da Santa” ou “Terra do Aldeamento”, que os Tremembé afirmam ter sido concedida aos índios no passado. Eles não vivem num único lugar, nem a categoria “aldeia” descreve bem a situação. De fato, os Tremembé habitam diversas localidades numa ampla dimensão geográfica. Em 1857, suas terras foram doadas aos índios da antiga povoação, mas acabaram sendo invadidas gradativamente por latifundiários. Contudo, a população indígena continuou vivendo na mesma região, inclusive mantendo o ritual do torém (dança-ritual sagrada). Chamados de caboclos ou descendentes de índios pelos regionais, os Tremembé passaram reivindicar o reconhecimento oficial de sua identidade étnica a partir da década de 1980. Em 2003, a Terra Indígena Tremembé Córrego do João Pereira foi a primeira a ser homologada no estado do Ceará.


É importante sinalizar aqui que iniciativas como a homologação e demarcação das terras indígenas e a educação diferenciada indígena são extremamente necessárias para a sobrevivência desses povos e de suas culturas, no contexto em que vivemos de preconceito e negação de nossas heranças ancestrais nativas. É preciso fortalecermos a luta indígena através do apoio às suas resistências. É preciso sermos meio para que suas vozes se amplifiquem. É preciso não esquecê-los.


Fontes:


PESQUISA mostra valor arqueológico de Jericoacoara. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, 17 mai. 2017. Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/noticias/ultimas-noticias/pesquisa-realca-valor-arqueologico-de-jericoacoara Acesso em: 24 mai. 2020.


TREMEMBÉ - Povos Indígenas no Brasil. Instituto Socioambiental. Fev. 2005. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Trememb%C3%A9 Acesso em: 15 mai. 2020.


FONTELES FILHO, José Mendes (Org.). História da educação diferenciada Tremembé. Fortaleza : Imprensa Universitária, 2014. 64 p.


CURSO de Literatura Intercultural da UFC (MITS). Ensino Superior Indígena - Mapeamento de controvérsias. Disponível em https://ensinosuperiorindigena.wordpress.com/atores/nao-humanos/li-ufc1/ Acesso em: 10 mai. 2020.




texto de autoria de Renata Cidrack.


Renata é arquiteta e urbanista, fotógrafa, designer, tradutora e pesquisadora, um ser apaixonado pela natureza e pela cultura e conectado pelo coração à vila de Jericoacoara. Trabalha realizando pesquisas, fazendo entrevistas e produzindo conteúdo para a Baía das Tartarugas.


 
 
 

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