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O mangue pede proteção

  • Foto do escritor: tartarugasdejeri
    tartarugasdejeri
  • 7 de fev. de 2023
  • 3 min de leitura

Atualizado: 7 de ago. de 2023

Logo a oeste de Jeri, encontramos o estuário do Rio Guriú, que em parte está inserido dentro do Parque Nacional de Jericoacoara (Unidade Federal de Proteção Integral, regida por lei específica).


Imagem 1


Os estuários são ambientes de transição entre a terra e o mar. São caracterizados por serem altamente ricos e com grande diversidade biológica; também, com elevada vulnerabilidade. Esses ecossistemas têm alta produtividade, sendo considerados verdadeiros berçários da vida local, uma vez que a fauna utiliza-se dos manguezais para se alimentar, reproduzir, desovar e fugir de predadores.


A legislação ambiental brasileira determina, desde 1965, que manguezais são Áreas de Preservação Permanente, onde é estritamente proibido qualquer tipo de exploração econômica direta ou ocupação humana.


As atividades predatórias advindas da ocupação humana desestabilizam profundamente os ambientes de mangue. O trabalho acadêmico “USOS DA TERRA E VULNERABILIDADE AMBIENTAL NO ESTUÁRIO-LAGUNAR DO GURIÚ, COSTA OESTE DO CEARÁ” mostra como, entre 2006 e 2017, 13,81 % da vegetação natural arbórea/arbustiva do estuário do Guriú foi perdida. Também, perdeu-se 11,09% do campo de dunas e aumentou em 30,29 % a área de vegetação antropizada (degradada) do ecossistema. O mapa destacado no carrossel de fotos (foto 3) é retirado desse trabalho, e mostra a gradação de vulnerabilidade dentro do estuário do Guriú.



Imagem 2


Já a dissertação “PARQUE NACIONAL DE JERICOACOARA: ZONEAMENTO AMBIENTAL PARA O PLANO DE MANEJO” destaca como o intenso tráfego de veículos ao longo do acesso ao Guriú degradou a área de apicum - região do manguezal sem cobertura vegetal expressiva, mas de intensa diversidade de fauna e produtora de nutrientes. Esses danos ambientais estão associados a compactação do solo, ruídos dos veículos e pisoteio dos caranguejos. Esse trabalho propõe então uma delimitação mais específica dos caminhos de acesso ao Parque Nacional, reduzindo o impacto desnecessário do tráfego de veículos sobre grandes áreas de extrema importância ambiental e grande vulnerabilidade.


Temos inúmeros relatos de moradores de como no passado encontrava-se no local cavalos marinhos coloridos e em grande maior quantidade. Quem viu a mudança sabe: a foto 1 do carrossel mostra a área em 1984, e a foto 2 é de 2009. Grande parte do estuário que se localizava à beira-mar foi devastado.



Imagem 3


No período de 2011 a 2015, desenvolveu-se no Parque Nacional de Jericoacoara uma pesquisa para conhecimento do estado de conservação dos cavalos-marinhos envolvidos na exploração turística. A pesquisa foi conduzida pelo Instituto Hippocampus, ONG localizada no município de Ipojuca (PE) dedicada à conservação de cavalos-marinhos; detectou-se uma diminuição significativa na densidade populacional dos cavalos-marinhos ao longo dos anos (Silveira, R.B. 2005), corroborando a necessidade de regulamentação e ordenamento da atividade turística.


Os cavalos-marinhos encontrados no mangue do guriú são da espécie H. reidi, que está na Lista Brasileira de Fauna Ameaçada de Extinção (MMA, 2014) e na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, 2021).


Embora tenhamos registros de ações de formação ambiental dos agentes envolvidos com o turismo na região do mangue e de regulamentação legislativa para atender à demanda de melhor preservação do ecossistema (Portaria nº 579, 2017), o que nos dizem essas pesquisas e a realidade experienciada por quem habita próximo ao mangue é que precisamos preservar melhor esse ecossistema.


A pergunta que fica é: o quanto vai nos custar não sabermos organizar comunitariamente formas de turismo menos predatórias? Quando iremos acordar?



Bibliografia:

OLIVEIRA, M. H. de. Usos da terra e vulnerabilidade ambiental no estuário-lagunar do Guriú, costa oeste do Ceará. 2018. 76 f. Monografia (Graduação em Ciências Ambientais) - Instituto de Ciências do Mar, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2018.


ARRUDA, Maíra Gomes Cartaxo de. Parque Nacional de Jericoacoara: Zoneamento Ambiental para o Plano de Manejo. Dissertação (mestrado em geografia) - Curso de Pós-Graduação em Mestrado em Geografia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2007.

CARVALHO MARTINS et al. Trajetória e Perspectivas do Turismo com Cavalos-Marinhos no Parque Nacional de Jericoacoara, Ceará. BIODIVERSIDADE BRASILEIRA , v. -, p. 234-248, 2022.


texto de autoria de Renata Cidrack.


Renata é arquiteta e urbanista, fotógrafa, designer, tradutora e pesquisadora, um ser apaixonado pela natureza e pela cultura e conectado pelo coração à vila de Jericoacoara. Trabalha realizando pesquisas, fazendo entrevistas e produzindo conteúdo para a Baía das Tartarugas.



 
 
 

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