De onde vem essa Jericoacoara?
- tartarugasdejeri

- 31 de ago. de 2020
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Atualizado: 7 de ago. de 2023

Que Jeri é um lugar intrigante, distinto e precioso, que várias histórias e lendas já foram contadas em seu nome e pelo seu povo não é novidade pra muita gente. Histórias cheias de importância, vale dizer: uma delas até questiona toda a historiografia oficial acerca do descobrimento do Brasil! (Eduardo Bueno, em 1998, no livro “Náufragos, traficantes e degredados”, conta que em janeiro de 1500, três meses antes de Cabral (que é conhecido oficialmente como o “descobridor do Brasil”), o navegador espanhol Vicente Pinzon aportou nas águas de Jericoacoara. Porém, este registro não pôde ser oficializado em virtude do Tratado de Tordesilhas, que entrou em vigor naquele mesmo ano. Mas contaremos melhor essa história em outra postagem mais adiante).
Muitas histórias existem envolvendo o curioso nome da vila que, durante seus mais de 400 anos de ocupação documentada, foi nomeada de diversas formas: Serrote, Jericoacoara, Jaracoara e outras variações - registradas ou perdidas no tempo. A caravela de Pinzon, por exemplo, chamou a região de “Rosto Hermoso” - esse talvez tenha sido o primeiro nome registrado do lugar.
Fala-nos Rebeca Matos em sua monografia intitulada “Além do “paraíso”: estudo sobre a configuração da cadeia produtiva do turismo em Jericoacoara, CE”:
“Os registros mais antigos que fazem referência a Jericoacoara datam do século XVI e XVII (Clerc-Renaud, 2002; NUGA, 1985; Lima; Silva, 2004) e de acordo com estes autores, o nome é de origem indígena, tupi, que significa “baía das tartarugas” ou “refúgio das tartarugas”, fazendo referência às tartarugas que colocavam seus ovos na praia da região. De acordo com o Núcleo de Geografia Aplicada de Universidade Estadual do Ceará (NUGA) (1985), são apresentadas diversas terminologias por meio das quais os viajantes de outros períodos descrevem a localidade: Gericoacoara, pelo capitão-mor Alexandre Moura, em 1615; Jaracoara para Gaspar de Sousa e Diogo de Campo utiliza o termo Geriguaguara.
Clerc-Renaud (2002) descreve que os nativos dão outro significado ao termo Jericoacoara, além do mencionado, mas que também refere a algum animal. O primeiro seria um significado próximo de “jacaré em banho de sol” e o segundo seria referente ao burro, porque a origem do nome Jericoacoara seria do termo “acuara” e teria uma tradução aproximada de “burro”. Também de acordo com Clerc-Renaud (2002) e Fonteles (2000) Jericoacoara já havia sido mencionada na obra “Iracema”, de José de Alencar, que se refere ao lugar como “refúgio dos papagaios”. Podemos perceber a riqueza que o nome “Jericoacoara” carrega no seu histórico de significados e referências; no entanto, gostaria de destacar a fala de Clerc-Renaud (2002) quando diz que havia dois nomes para o mesmo lugar. Ela nos diz que o lugar era conhecido como “Serrote” em referência ao monte rochoso que quebra a continuidade das praias da região, sendo um diferencial da paisagem. Nas entrevistas com moradores locais da época da pesquisa de Clerc-Renaud, eles diziam que o lugar era conhecido como “Serrote”, inclusive nas regiões próximas. A autora diz que a predominância do termo “Jericoacoara” veio com a chegada do turismo, na década de 1980; os nativos usavam o nome “Jericoacoara” quando tratavam com turistas, mas entre eles usaram por muitas vezes o termo “Serrote”.
Para finalizar a explicação de porque o termo “Jericoacoara” ter se
sobressaído sobre “Serrote”, Clerc-Renaud diz que apesar de dados históricos mostrarem que o nome “Jericoacoara” existe há mais tempo que “Serrote”, o primeiro não prevaleceu na comunidade local que crescia. O uso do nome “Jericoacoara” se fortaleceu na década de 1980, através de agências e guias de turismo. (...) Por fim, é importante destacar uma observação que Clerc-Renaud faz no seu trabalho: ela diz que “Jericoacoara” é um nome que veio de fora, de outros oceanos, através de historiadores e viajantes; “Serrote” surgiu pelas pessoas que se instalaram no local, a partir de um período de ocupação.”
Entendendo-se as origens da ocupação do território onde hoje se localiza Jericoacoara fica fácil perceber porque a conclusão de Clerc-Renaud é tão coerente; a região tem seus primeiros registros de ocupação datados do século XVII, onde lá habitavam índios Tremembés (os Tremembés faziam parte de um povo que habitava anteriormente o sertão e migrou para o litoral; na historiografia oficial, os Tremembés são reconhecidos como parte dos “Tapuias”, que, em oposição aos Tupis - que ocupavam a costa e falavam a língua geral -, eram grupos indígenas com diversidade linguística e cultural).
Consta nos estudos de diversos historiadores um genocídio, temporalmente localizado na segunda metade do século XVII, aos povos Cariris, dos quais os Tremembés faziam parte; a “Guerra dos bárbaros” foi a sucessão de fatos que se iniciou com a ação perversa do bandeirante Manuel Álvares de Moraes Navarro, arquitetando e munindo de armas de fogo a guerra entre dois povos - Paiacu e Janduí; 400 Paiacu foram mortos e 250 presos na ocasião, o que logo tornou-se argumento para “justificar” o extermínio e a escravização dos índios da região, afinal, estes eram, na visão dos portugueses, “seres bárbaros e perigosos”. Relatos históricos mostram que os povos que sobreviveram a esse sangrento período agruparam-se nos arredores de Camocim, que é município vizinho a Jericoacoara.
Assim, tendo em vista o contexto colonizador impositivo e exploratório vigente no período em que foi cunhado o termo “Jericoacoara” (o nome já aparece em registros que datam de 1614), além do fato de que que os povos originários da região nem mesmo tupi-guarani falavam, pois faziam parte da nação Tapuia, e não Tupi, significando que tinham idioma e cultura próprios, é fácil entender porque provavelmente o nome “Jericoacoara” não tenha sido herança dos povos originários do lugar, e sim cunhado pelos brancos que ali chegaram a partir do século XVII e perpetuado em decorrência da força de seu poder impositivo-colonizador.
texto de autoria de Renata Cidrack.

Renata é arquiteta e urbanista, fotógrafa, designer, tradutora e pesquisadora, um ser apaixonado pela natureza e pela cultura e conectado pelo coração à vila de Jericoacoara. Trabalha realizando pesquisas, fazendo entrevistas e produzindo conteúdo para a Baía das Tartarugas.





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